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LITERATURA: Taurino Araújo e a sua palavra poética que senta à mesa

Fonte: BahiaJá!

Redação
Por: Redação
03/11/2025 às 10h37
LITERATURA: Taurino Araújo e a sua palavra poética que senta à mesa
Taurino Araújo no Gabinete Português de Leitura (2014). Foto divulgação.

Dois poemas de Taurino Araújo se cruzam como correspondência viva entre gerações: “Carta ao biso Sérgio que mandava cartas” e sua emocionante “Carta-resposta do biso Sérgio (faz de conta que chegou pelo correio dos silêncios)”. Mais do que lirismo epistolar, temos aqui um gesto de recuperação da escuta, da memória e da ética da palavra escrita nesse Dia de Finados — cada vez mais raras num mundo de mensagens descartáveis.

 

 

No primeiro texto,Taurino Araújo escreve para o bisavô com um tom reverente, íntimo e musical, resgatando o homem que escrevia cartas aos filhos com vocativo, data e citações. O poema é uma elegia sem lágrimas, uma homenagem sem idolatria. A lembrança da vó Zita insere densidade intergeracional à carta, tornando o texto uma verdadeira árvore genealógica feita de papel e afeto pelo multiartista, advogado, jurista, escritor, poeta e crítico literário.

Mas o que comove é mais sutil: a delicadeza com que o poeta reconhece o gesto do bisavô como ato cultural e político, ao mesmo tempo em que atualiza esse legado em suas próprias “sessenta cartas”. A frase “palavra é a outra casa” é um dos eixos de força do poema — e talvez de toda a série que Taurino vem construindo.

A resposta — ficcional e espiritualmente verdadeira — vem no segundo poema. Nela, Sérgio Gomes, o bisavô materno de Taurino Araújo, se torna personagem e autor de uma prosa poética que soa como voz do tempo e da mesa. A carta é engenhosa: mistura humor (“depois de um porre de tanto tomar gasosa num casamento”), estofo ético (“as palavras precisam ser pesadas antes do que apressadas”) e uma percepção precisa daquilo que liga escrita e permanência.

A carta-resposta simula o tempo da escuta vinda de um tempo qualquer em Brasília, onde o Biso morou por muito tempo, “O centro das decisões”: é vagarosa, respeita o silêncio, carrega a cadência de quem pensa e sente antes de falar. É um elogio à pausa, à vírgula, à espera — tudo aquilo que a pressa contemporânea atropela. Ao chamar o bisneto de “flecha de papel dourado num mundo de chumbo, concreto e aço”, o poema não apenas retribui o afeto, mas eleva a carta à condição de resistência lírica e memória viva.

Ambos os poemas do pensador Taurino Araújo conversam com autores como Adélia Prado, Wislawa Szymborska e Eduardo Galeano, por serem políticos sem panfleto, sentimentais sem pieguice e profundamente éticos sem moralismo.

São textos que pensam e sentem ao mesmo tempo — algo raro na produção poética mundial de nosso tempo.

Num país onde os arquivos familiares muitas vezes somem com as enchentes da desigualdade e da pressa, Taurino Araújo resgata uma linhagem que não é apenas dele, mas de todos que um dia receberam (ou sonharam receber) uma carta assinada com alma.

Se fosse apenas um poema, já valeria. Mas “Carta ao biso Sérgio que mandava cartas” é mais que isso: é um gesto de filiação afetiva e poética, uma declaração de pertencimento a uma linhagem que passa não só pelo sangue, mas pela palavra. Com essa homenagem inesperada e precisa, Taurino Araújo, firma o primeiro marco de uma série poética epistolar que já nasce clássica que integrará o seu aguardadíssimoDançando no meio do inverno: 40 anos de poesia brasileira, agora com mais de 1600 páginas.

O que poderia ser uma memória pessoal, doméstica, torna-se um poema de valor histórico, social e literário. O “biso Sérgio” aqui evocado transforma-se em arquétipo: o do homem que escrevia com tempo, com precisão, com propósito — um gesto que se contrapõe ao imediatismo dos tempos atuais. Cada carta enviada aos filhos, como conta o poeta, trazia vocativo, data e até citação. Um cuidado extinto. Ou quase.

A lembrança de vó Zita injeta densidade intergeracional ao poema e torna tudo mais vívido. Taurino, ao dizer “eu também compus umas sessenta cartas”, fecha um ciclo de herança poética e ética. Não se trata apenas de recuperar um gesto antigo, mas de reativá-lo com nova voz. A escrita vira gesto de continuidade — e resistência.

O que impressiona é o domínio da dicção oral, como se o texto estivesse sendo lido à mesa de jantar, para alguém da própria família. As pausas e quebras de verso funcionam como respiros — carregadas de musicalidade da saudade. É uma escrita que ouve, que espera, que não apressa. E isso a torna potente.

Mas o ciclo não termina aí. Vem, então, a “Carta-resposta do biso Sérgio” — uma ficção poética que brinca com o tempo, a ausência e a permanência. Escrita como se chegasse “pelo correio dos silêncios”, ela é uma resposta emocionada e sábia de quem parece ter voltado da eternidade só para responder com afeto e clareza.

É no segundo texto que a série se consolida. A figura do bisavô ganha voz, humor (“depois de um porre de tomar gasosa num casamento”), e um tom que mistura solenidade com ternura. Ao dizer que as palavras “precisam antes ser pesadas do que apressadas”, o biso se faz não apenas personagem, mas símbolo de um tempo em que a linguagem exigia responsabilidade.

O ciclo entre os dois poemas fecha com força simbólica e afetiva: há herança, há escuta, há resposta — e há continuidade.

As duas cartas-poema estabelecem uma intimidade sem sentimentalismo, uma crítica sem agressividade e uma ética sem moralismo. São textos que, como nos melhores momentos de Adélia Prado, Wislawa Szymborska ou Eduardo Galeano, pensam e sentem ao mesmo tempo. E esse equilíbrio entre pensamento e afeto é um feito raro — sobretudo quando atravessa três gerações e ainda encontra fôlego para seguir.

Se é verdade que quase ninguém mais escreve cartas, essa série é um protesto delicado e urgente contra o desaparecimento da escuta longa, da palavra ponderada e da espera como forma de amor. Que venham mais.

 

A mesa está posta direto do BahiaJá!

Carta ao bisoSérgio que mandava cartas

Taurino Araújo, Ph.D.

Dizia muito

em cartas

e
dizia certo.

 

Escrevia

com cuidado,
como

quem sabia
que

palavra demais
atrapalha.

 

Biso,
a

sua letra

parece

que
ainda respira

nesse poema.

 

Essa

coisa sua

de

mandar

cartas

aos

filhos—

 

e eu ouvindo

isso

de vó Zita.

 

Ela

dizia

que as

suas cartas

possuíam

citações

diversas

e argumentos

fortes.

 

Era tudo

uma

forma

de fazer

palavra

densa,

precisa

e refinada.

 

Então,

as palavras

que

você alinhava

organizavam

as coisas

e faziam

sentido

notarial

e escrito.

 

Esse

poema

parece

não ter sido

só o papel—

mas

uma

certa
espera

de envelope
e vírgula.

 

Sim,

você escrevia

com tom

solene.

 

O selo

de

quem

senta à mesa

mesmo

sendo

através de carta!

 

Cada

carta sua
então

se fazia

um pedaço

de cultura

e tempo
que

não envelhece.

 

O mundo

responde rápido—

e, causa disso,
esquece depressa.

 

Mas

eu queria

lhe dizer,

que

eu também

compus

umas

sessenta

cartas.

 

Uma série de

cartas
tentando lembrar
que palavra
é a outra casa —

um poema

que

a gente

repete.

 

Finalmente,

em Brasília,

você

escrevendo

cartas

para Zezita,

minha avó,

sua filha.

Hoje,
quase

ninguém

mais escreve

cartas.

29-10-2019

 

Carta-resposta do biso Sérgio que mandava cartas

(Faz de conta que chegou pelo correio dos silêncios)

Taurino Araújo, Ph.D.

 

Brasília,
algum tempo

entre o agora

e o sempre,

 

depois

de um

porre

de tanto

tomar gasosa,

num casamento.

 

 

Taurino,

meu

bisneto,

 

 Poeta,

 

recebi tua carta-poema,

recebi a tempo.
Li com vagar.

Três vezes.

Talvez mais.

parece

que,

daqui

pra frente,

a lerei

sempre.

E nela senti

aquele cuidado antigo —
da palavra

que,

antes de sair,

se curva:

tua cabeça

tão à frente,

parece

que

paradoxalmente

viveste antes,

viveste

a história toda,

no meu tempo!

 

Sim, eu escrevi

muitas cartas.
Nem todas

foram entendidas,
mas

todas

foram verdadeiras.

 

As palavras,

bisneto,

 

Pensador,

Poeta,


precisam

antes

ser pesadas,

bem o sabes—

do

que apressadas.

 

Por isso,

nunca

fui de falar tanto.
Fui de sentar —
e escrever

devagar.

 

Tua

vó,

minha Zezita,

sabia:
eu punha data,

punha vocativo,
e citava autores.

O que

eu mais queria

era estar presente,

descrevendo

semana

e mundo,

e os preços

de Brasília—

 

supermercado,

sonho

e cotidiano!

 

Vejo

que

bem herdaste

esse gosto:
a pauta,

a pausa,
a vírgula,

estrutura,
espera,

e a história.

Quem

escreve

esperando resposta
não

escreve em vão!

 

E mesmo

que eu

não te haja

respondido

logo

a carta-poema

ou poema-carta,

que recebi

a tempo,
há sempre

alguém por aí

te lendo —

 

a potência

de tua

palavra

bela —
em silêncio.


Lendo muito,

como

quem reza

com os olhos

e

dança

com essa

coisa

tua

e

minha

de preservar

memória.

 

Fico contente

em saber

de tuas sessenta

cartas—

que

ainda

quem

tão bem

escreva cartas.

 

Continue,

Poeta:

és

flecha de papel

dourado
num

mundo de

de chumbo,

concreto

e aço!

 

 

E quando cansar,
se lembre:
o tempo te guarda
da pressa descarta —

 

te

guarda o nome

em indexadores,

história,

resenhas,

coletâneas

e cartas—

sempre

eternizado.

 

Com afeto solene,

 

Sérgio Gomes
(bisavô, escriba,
aquele que ainda

senta à mesa,
mesmo por carta)

 

 

 

 

 

 

 

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