
Dois poemas de Taurino Araújo se cruzam como correspondência viva entre gerações: “Carta ao biso Sérgio que mandava cartas” e sua emocionante “Carta-resposta do biso Sérgio (faz de conta que chegou pelo correio dos silêncios)”. Mais do que lirismo epistolar, temos aqui um gesto de recuperação da escuta, da memória e da ética da palavra escrita nesse Dia de Finados — cada vez mais raras num mundo de mensagens descartáveis.
No primeiro texto,Taurino Araújo escreve para o bisavô com um tom reverente, íntimo e musical, resgatando o homem que escrevia cartas aos filhos com vocativo, data e citações. O poema é uma elegia sem lágrimas, uma homenagem sem idolatria. A lembrança da vó Zita insere densidade intergeracional à carta, tornando o texto uma verdadeira árvore genealógica feita de papel e afeto pelo multiartista, advogado, jurista, escritor, poeta e crítico literário.
Mas o que comove é mais sutil: a delicadeza com que o poeta reconhece o gesto do bisavô como ato cultural e político, ao mesmo tempo em que atualiza esse legado em suas próprias “sessenta cartas”. A frase “palavra é a outra casa” é um dos eixos de força do poema — e talvez de toda a série que Taurino vem construindo.
A resposta — ficcional e espiritualmente verdadeira — vem no segundo poema. Nela, Sérgio Gomes, o bisavô materno de Taurino Araújo, se torna personagem e autor de uma prosa poética que soa como voz do tempo e da mesa. A carta é engenhosa: mistura humor (“depois de um porre de tanto tomar gasosa num casamento”), estofo ético (“as palavras precisam ser pesadas antes do que apressadas”) e uma percepção precisa daquilo que liga escrita e permanência.
A carta-resposta simula o tempo da escuta vinda de um tempo qualquer em Brasília, onde o Biso morou por muito tempo, “O centro das decisões”: é vagarosa, respeita o silêncio, carrega a cadência de quem pensa e sente antes de falar. É um elogio à pausa, à vírgula, à espera — tudo aquilo que a pressa contemporânea atropela. Ao chamar o bisneto de “flecha de papel dourado num mundo de chumbo, concreto e aço”, o poema não apenas retribui o afeto, mas eleva a carta à condição de resistência lírica e memória viva.
Ambos os poemas do pensador Taurino Araújo conversam com autores como Adélia Prado, Wislawa Szymborska e Eduardo Galeano, por serem políticos sem panfleto, sentimentais sem pieguice e profundamente éticos sem moralismo.
São textos que pensam e sentem ao mesmo tempo — algo raro na produção poética mundial de nosso tempo.
Num país onde os arquivos familiares muitas vezes somem com as enchentes da desigualdade e da pressa, Taurino Araújo resgata uma linhagem que não é apenas dele, mas de todos que um dia receberam (ou sonharam receber) uma carta assinada com alma.
Se fosse apenas um poema, já valeria. Mas “Carta ao biso Sérgio que mandava cartas” é mais que isso: é um gesto de filiação afetiva e poética, uma declaração de pertencimento a uma linhagem que passa não só pelo sangue, mas pela palavra. Com essa homenagem inesperada e precisa, Taurino Araújo, firma o primeiro marco de uma série poética epistolar que já nasce clássica que integrará o seu aguardadíssimoDançando no meio do inverno: 40 anos de poesia brasileira, agora com mais de 1600 páginas.
O que poderia ser uma memória pessoal, doméstica, torna-se um poema de valor histórico, social e literário. O “biso Sérgio” aqui evocado transforma-se em arquétipo: o do homem que escrevia com tempo, com precisão, com propósito — um gesto que se contrapõe ao imediatismo dos tempos atuais. Cada carta enviada aos filhos, como conta o poeta, trazia vocativo, data e até citação. Um cuidado extinto. Ou quase.
A lembrança de vó Zita injeta densidade intergeracional ao poema e torna tudo mais vívido. Taurino, ao dizer “eu também compus umas sessenta cartas”, fecha um ciclo de herança poética e ética. Não se trata apenas de recuperar um gesto antigo, mas de reativá-lo com nova voz. A escrita vira gesto de continuidade — e resistência.
O que impressiona é o domínio da dicção oral, como se o texto estivesse sendo lido à mesa de jantar, para alguém da própria família. As pausas e quebras de verso funcionam como respiros — carregadas de musicalidade da saudade. É uma escrita que ouve, que espera, que não apressa. E isso a torna potente.
Mas o ciclo não termina aí. Vem, então, a “Carta-resposta do biso Sérgio” — uma ficção poética que brinca com o tempo, a ausência e a permanência. Escrita como se chegasse “pelo correio dos silêncios”, ela é uma resposta emocionada e sábia de quem parece ter voltado da eternidade só para responder com afeto e clareza.
É no segundo texto que a série se consolida. A figura do bisavô ganha voz, humor (“depois de um porre de tomar gasosa num casamento”), e um tom que mistura solenidade com ternura. Ao dizer que as palavras “precisam antes ser pesadas do que apressadas”, o biso se faz não apenas personagem, mas símbolo de um tempo em que a linguagem exigia responsabilidade.
O ciclo entre os dois poemas fecha com força simbólica e afetiva: há herança, há escuta, há resposta — e há continuidade.
As duas cartas-poema estabelecem uma intimidade sem sentimentalismo, uma crítica sem agressividade e uma ética sem moralismo. São textos que, como nos melhores momentos de Adélia Prado, Wislawa Szymborska ou Eduardo Galeano, pensam e sentem ao mesmo tempo. E esse equilíbrio entre pensamento e afeto é um feito raro — sobretudo quando atravessa três gerações e ainda encontra fôlego para seguir.
Se é verdade que quase ninguém mais escreve cartas, essa série é um protesto delicado e urgente contra o desaparecimento da escuta longa, da palavra ponderada e da espera como forma de amor. Que venham mais.
A mesa está posta direto do BahiaJá!
Carta ao bisoSérgio que mandava cartas
Taurino Araújo, Ph.D.
Dizia muito
em cartas
e
dizia certo.
Escrevia
com cuidado,
como
quem sabia
que
palavra demais
atrapalha.
Biso,
a
sua letra
parece
que
ainda respira
nesse poema.
Essa
coisa sua
de
mandar
cartas
aos
filhos—
e eu ouvindo
isso
de vó Zita.
Ela
dizia
que as
suas cartas
possuíam
citações
diversas
e argumentos
fortes.
Era tudo
uma
forma
de fazer
palavra
densa,
precisa
e refinada.
Então,
as palavras
que
você alinhava
organizavam
as coisas
e faziam
sentido
notarial
e escrito.
Esse
poema
parece
não ter sido
só o papel—
mas
uma
certa
espera
de envelope
e vírgula.
Sim,
você escrevia
com tom
solene.
O selo
de
quem
senta à mesa
mesmo
sendo
através de carta!
Cada
carta sua
então
se fazia
um pedaço
de cultura
e tempo
que
não envelhece.
O mundo
responde rápido—
e, causa disso,
esquece depressa.
Mas
eu queria
lhe dizer,
que
eu também
compus
umas
sessenta
cartas.
Uma série de
cartas
tentando lembrar
que palavra
é a outra casa —
um poema
que
a gente
repete.
Finalmente,
em Brasília,
você
escrevendo
cartas
para Zezita,
minha avó,
sua filha.
Hoje,
quase
ninguém
mais escreve
cartas.
29-10-2019
Carta-resposta do biso Sérgio que mandava cartas
(Faz de conta que chegou pelo correio dos silêncios)
Taurino Araújo, Ph.D.
Brasília,
algum tempo
entre o agora
e o sempre,
depois
de um
porre
de tanto
tomar gasosa,
num casamento.
Taurino,
meu
bisneto,
Poeta,
recebi tua carta-poema,
recebi a tempo.
Li com vagar.
Três vezes.
Talvez mais.
parece
que,
daqui
pra frente,
a lerei
sempre.
E nela senti
aquele cuidado antigo —
da palavra
que,
antes de sair,
se curva:
tua cabeça
tão à frente,
parece
que
paradoxalmente
viveste antes,
viveste
a história toda,
no meu tempo!
Sim, eu escrevi
muitas cartas.
Nem todas
foram entendidas,
mas
todas
foram verdadeiras.
As palavras,
bisneto,
Pensador,
Poeta,
precisam
antes
ser pesadas,
bem o sabes—
do
que apressadas.
Por isso,
nunca
fui de falar tanto.
Fui de sentar —
e escrever
devagar.
Tua
vó,
minha Zezita,
sabia:
eu punha data,
punha vocativo,
e citava autores.
O que
eu mais queria
era estar presente,
descrevendo
semana
e mundo,
e os preços
de Brasília—
supermercado,
sonho
e cotidiano!
Vejo
que
bem herdaste
esse gosto:
a pauta,
a pausa,
a vírgula,
estrutura,
espera,
e a história.
Quem
escreve
esperando resposta
não
escreve em vão!
E mesmo
que eu
não te haja
respondido
logo
a carta-poema
ou poema-carta,
que recebi
a tempo,
há sempre
alguém por aí
te lendo —
a potência
de tua
palavra
bela —
em silêncio.
Lendo muito,
como
quem reza
com os olhos
e
dança
com essa
coisa
tua
e
minha
de preservar
memória.
Fico contente
em saber
de tuas sessenta
cartas—
que
ainda
há
quem
tão bem
escreva cartas.
Continue,
Poeta:
és
flecha de papel
dourado
num
mundo de
de chumbo,
concreto
e aço!
E quando cansar,
se lembre:
o tempo te guarda
da pressa descarta —
te
guarda o nome
em indexadores,
história,
resenhas,
coletâneas
e cartas—
sempre
eternizado.
Com afeto solene,
Sérgio Gomes
(bisavô, escriba,
aquele que ainda
senta à mesa,
mesmo por carta)